“Do porque eu amo a Índia”

Texto do amigo, professor e fotógrafo Juliano Coelho, postado 7 de dezembro de 2017.


Já fazem dois meses que voltei da Índia e se tem algo que eu posso afirmar é que, passado esse tempo, a Índia ainda não saiu de mim. Penso nela todos os dias e talvez nunca mais deixe de pensar.

Sempre em minhas aulas cito Picasso quando afirmou que “todo ato de criação é, antes de tudo, um ato de destruição”. Sabe por que os primeiros quinze dias na Índia foram tão difíceis? Porque eu precisava destruir muitas coisas dentro de mim para me tornar um novo homem.

Sim, o choque cultural é muito grande, um abismo eu diria, mas fomos ensinados por alguma razão a aplicar nossa régua comparativa à quase tudo. Tanto é que, a qualquer lugar que vamos pensamos inevitavelmente: “mas no Brasil isso é assim, ou, no Brasil isso é assado”, quase com uma pontinha de tentação em achar que aquilo que é nosso é melhor. Pensa se isso não estava no “modo insano” em terras indianas. No começo, tudo me machucou muito, mas a culpa não era da Índia, era minha e somente minha.

Só depois desses 32 dias lá e depois dessas semanas de volta, percebi que três coisas em mim precisavam mudar urgentemente: meu lado espiritual, meu lado fotógrafo e sobretudo meu lado humano. Dois meses se passaram e eu nunca mais me senti tentado a sequer reclamar de nada. Tudo em minha mesa e todo pouco já é um grande motivo para gratidão. Hoje agradeço por tudo, o pouco que entra na conta, os momentos que não tenho trabalho e posso ser apenas pai, a brisa marítima à beira-mar lendo um livro, o amanhecer, a água da torneira, o silêncio do meu bairro, meu carro velho, tudo.

Voltei a acreditar no poder da gentileza e como a gentileza pode sim mudar o mundo. Tenho muito mais vontade de servir e fazer muitas coisas gratuitamente apenas para ver as pessoas melhor. Hoje sei o quanto uma gentileza pode mudar a vida de alguém e isso é realmente sério. Sorrio muito mais, me preocupo muito menos. Me sinto mais próximo de Deus, mesmo sabendo que Ele já estava próximo de mim.

Meu olhar está se renovando aos poucos, pois na Índia é tanta coisa para ver, tanta cor, tanto contraste que chega a doer, sobretudo para alguém que é viciado em limpeza e organização. Hoje fotografo em qualquer lugar, desde os mais simples, destruídos e inusitados e sim, tudo pode ficar bom com o devido olhar. Na Índia a foto acontece a todo instante e isso me deixou extremamente mais perceptivo e com muita vontade de sair para fotografar e conhecer gente nova.

Aprendi que indiano não se deprime, indiano não sofre, indiano não treme ou se intimida, indiano não reclama, só agradece e encara tudo como uma oportunidade e o que eu achei mais lindo de me fazer chorar, indiano conserta tudo. Tudo tem conserto. Tem ideia do valor desse conceito em uma sociedade como a nossa onde simplesmente tudo é descartável? Hoje pratico muito mais o perdão e as segundas chances (ou terceiras).

Triste que aprendemos a nos apegar à opiniões como se elas fossem princípios inegociáveis. Princípios podem não mudar, mas opinião meus amigos, essa deveria mudar, sobretudo conforme vamos cedendo à beleza do experimentar. Como pude eu ficar tanto tempo fazendo a mesma coisa, tendo uma rotina tão dura e sobretudo como passei tantos anos em um mesmo lugar sendo que há um mundo inteiro para se ver? Só de ter passado 32 dias em um lugar tão chocante à primeira vista, já voltei diferente. Agora abriu-se um caminho irreversível, de ver o mundo sobretudo com outros olhos. E se preparem, pois ano que vem volto à Índia e quero que mais alunos passem pela transformação que passei. É difícil, mas um fotógrafo literalmente precisa sair da famosa “zona de conforto” e eu convido vocês a viver isso.

Por fim, amo a Índia não especificamente pelo que ela é, mas sobretudo pelo que ela fez comigo e pelo que ela representa. Amo a Índia porque ela me ensinou sobre a verdadeira riqueza. Até o meio deste ano, eu trabalhava incessantemente para ser rico quando na verdade descobri que eu já era. A riqueza se trata em saber aproveitar o tempo, os amores e amizades, e sobretudo o acúmulo de experiências. Hoje acredito que nossas opiniões são formadas pelas nossas experiências e isso tem um valor impagável. Amigos, minha vida tá só começando! Ainda tenho tanto a experimentar, ver e aprender. Hoje minha vontade é de largar tudo e sair ao mundo. Um dia ainda, quem sabe, serei missionário.

Roberto e Lari, estar com vocês por 32 dias foi o maior presente que a Índia me proporcionou, maior do que tudo que citei. Amizade e momentos que jamais esquecerei. Obrigado por todo empenho, esforço, todos os sorrisos, toda ajuda, todos os desafios e todos os perrengues. Que nossa parceria seja por longa data, assim como nossa amizade.

Obrigado a todos os alunos que superaram seus limites para estar lá e viver tudo que vivemos. Jamais esquecerei de vocês.

Deixo a foto dessa família incrível que conhecemos no Chand Baori, no Rajastão. Sem cobrar nada, nos fizeram sua tradicional bênção, sorriram, deram doces e presente à minha filha e me fizeram voltar a acreditar na pureza da gentileza. Como se diz, podemos esquecer o que nos disseram mas jamais esqueceremos como fomos tratados.

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Em 2017 tivemos o privilégio de trazer o Juliano com duas turmas de fotógrafos para duas viagens de imersão fotográfica, inspiradas no trabalho do fotógrafo Steve McCurry, o autor das mais icônicas (e lindas) fotos sobre a Índia. Foram duas viagens inesquecíveis, cheias de trocas, aprendizados e fotos incríveis. Em 2019 voltaremos à Índia com ele, para uma Imersão de Retratos no mês de abril. Em breve, mais informações.

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